#22 Luz
Um passeio com um pouco de mistério
Os tempos estranhos têm um cheiro, um cheiro que treme, é algo que sinto como um mar sem água, um não-sentido. Ou um sentido completo, tão completo que. Se Ela soubesse que estou aqui, nessa cidade, talvez pedisse um presente, um souvenir, um terço. Mas não pode saber, não quer. Quando fui a Roma e ao Vaticano, aos 25 anos, ainda que à noite eu estivesse pronta pra transar no banheiro do hostel com completos desconhecidos, nas manhãs eu procurava por escolha própria os tais presentinhos: ímãs, medalhinhas, santinhos com a figura do Papa. Sempre entendi que a minha vida seria um pouco de rosário e um pouco de clitóris. Deve ser por isso que eu faço o que faço.
Desço pro café da manhã sozinha. Tem cinco mesas ocupadas no salão, um daqueles salões de hotel de locação de filme. Com a decoração ultrapassada, toalhas de mesa estampadas em vermelho, um paredão de madeira com um relógio cinza pendurado. A TV em cima da sanduicheira passava um programa matinal da Globo. Me lembro Dela reclamando da qualidade dos hotéis em que a gente ficava no Sul de Minas, quando dava pra viajar. Tudo caindo aos pedaços. Um luxo embolorado era o que dava pra gente pagar, mas a verdade é que meus olhos tão meninos ignoravam o bolor, achavam aqueles tapetes vermelhos bem anos 50 maravilhosos. Quanto maior a viagem no tempo, melhor pra mim. Era como se a própria viagem se aprofundasse. Penso nesse verbo, em uma coisa se aprofundando sozinha denro de si, e bate um medo. Como eu disse, os tempos são estranhos.
Enquanto ela dorme como uma nuvenzinha no quarto, saio do hotel em ímpeto, cruzo a rua. A cidade está em absoluto silêncio, é sábado, quase nenhuma porta aberta. Estamos hospedadas bem no centro. Ao longe vejo uma montanha enorme e limpa, vegetadada, com um ou outro carro atravessando em rapidez solitária. Uma montanha que parece cantada pelo Clube da Esquina. Assim que boto o pé na rua, sinto essa alegria estranha da solidão, como se tudo pudesse me acontecer e eu pudessse fazer tudo, uma espécie de onipotência que poderia acabar com um simples tropeço no meio-fio. Ainda assim, onipotência. Tudo o que não acabou ainda é, e tem uma chance de seguir sendo, até que se prove o contrário.
Uma grande ironia: vim até essa cidade acompanhá-la em um evento. Estava escrito no vale do restaurate em que poderíamos comer nos dias de festival, como cortesia: ACOMPANHANTE. Essa palavra, que há dois anos me deixaria em redemoinhos, hoje me enternece. Sou, além de tudo, também esse outro menor de alguém. Me sinto uma espécie de mistério. E se eu nunca for alguém, nunca tiver ACOMPANHANTE, tudo bem também. A coisa mais importante não está aí.
Acho que vim à cidade, na verdade, pra ficar sozinha. Todas as tacadas da vida me levaram exatamente a esse ínfimo intervalo de solidão, enquanto acompanho.
Uma outra grande ironia: sei que um dia, acordada do seu estado de nuvem, ela vai ler esse texto. E vai caminhar comigo na minha solidão, como se pudesse me ver e eu não pudesse vê-la nesse percurso. Vai caminhar comigo sem emitir som algum, mais ou menos como eu funciono pra ela todas as manhãs, enquanto ela não abre os olhos e nem põe os barulhinhos pra dentro das orelhas. Um fantasma, ou um sonho.
Tem ainda uma última (será?) grande ironia: quando ela ler esse texto, pode ser que acredite nessa caminhada, pode ser que não. Pode ser que eu esteja inventando tudo, pode ser que eu tenha mesmo saído pela porta do hotel e feito tudo o que descrevo aqui. Ou eu posso criar um sonho pra ela, pra mim, já de outro tempo. Tanto a realidade quanto a ficção requerem uma dose de fé, portanto, e consequentemente de mistério.
Acho que a coisa importante, aquela, está justamente aqui.
Muitas vezes escrevi só pra alguém ler. Mas não qualquer alguém, um alguém muito particular. Me fazer sozinha pra me entregar a uma promessa de companhia invisível, de futuro. O futuro não existe, a gente sabe, mas também existe demais. Se não fosse assim, não estaria tão preocupada com o meu, e nem com um pedaço de papel — o laudo que alguém ainda não escreveu.
Escrevo porque alguém não me leu, e essa solidão abraçou todos os tempos.
Subo a ladeirinha em direção a uma igreja, pomposa pro padrão do centro da cidade. Só pode ser a catedral, e dois metros adiante um letreiro Padaria Catedral confirma minha hipótese. A padaria é o único comércio aberto às dez da manhã de um sábado, além de uma pastelaria deserta que se anuncia com um protuberante pastel de plástico em sua entrada, um pastel com olhos, boca e bigodinho de gato. Quase nenhum carro barulha ao redor. Chego ao portal da igreja e vejo que ela foi construída no século XVIII.
O lado de fora não condiz com o interior, que parece o de uma igreja do ciclo do ouro de Minas Gerais. Amadeirada, vibrando entre o dourado e as tintas fortes. Um lugar que eu já preço conhecer. Bem barroca. Penso no álbum novo da Rosalía, me dá vontade de rir, uma vontade insuficiente pra que qualquer músculo se mova. Lá vamos nós. Há pouco mais de um ano, quando lancei uma plaquete, eu disse que escrevia meio barroco. No fundo, pensei, somos duas garotas bem pretensiosas, a diferença é que ela é importante, e eu, acompanhante. Alguém vai rir disso um dia, provavelmente ela, a nuvenzinha, quando ler. E rirá o riso que não ri.
Fui à Catalunha uma vez na vida, e fiquei encantada. Claro, fui na condição de turista, lazer o dia todo, segurando minha bolsa nas Ramblas porque me prometeram que eu seria assaltada, mas eu repetia que me recusava a, que eu não tinha saído do Méier pra ser assaltada em Barcelona. Breno e eu usamos algumas horas daquele lazer ilimitado pra visitar a Catedral da Sagrada Família, um monumento absolutamente gigantesco e estrondoso — hoje a igreja mais alta do mundo —, encravada ali meio da cidade.
Aquela catedral é, pra mim, tipo um livro do coração do cânone, daqueles que reviram vidas. Mesmo. Nunca me emocionei tanto com um prédio moderno. O tamanho daquilo nos dá a dimensão de deus, seja o que for. As luzes pendentes e coloridas, uma mistura de gótico com art nouveau com essa coisa que o Gaudí fazia, a pequenez que não precisa da escuridão, a iluminação ao mesmo tempo doce e assustada que é a dimensão da nossa humanidade, a forma exata dela. As dimensões se confundem nas formas hiperbólicas, talvez sejam a mesma coisa, só o medo de nascer ou de morrer. O céu distante e colorido, na copa das árvores-pilares. É um dos céus mais bonitos que já vi, porque ele fala. Ele tem uma linguagem.
Uma coisa que nem todo mundo sabe é que a catedral ainda não está pronta, apesar das visitas liberadas há muito tempo. Lembro dos andaimes gigantes emoldurando suas torres quando fomos lá. Consta que a obra foi encomendada a Gaudí, quando ele tinha 31 anos, com certa desconfiança da arquidiocese local, porque ele não era exatamente um católico praticante. Com o avançar das obras, se tornou um. Passou os últimos 40 anos da sua vida dedicados à obra que, sabia, jamais viria nascer. Morreu atropelado por outra obra da engenharia moderna — um bonde — em 1926.
A promessa era que a catedral ficasse pronta no ano que vem, 100 depois da sua morte. Mas vai atrasar.
Desligue o celular ou coloque no modo avião, pede uma placa na entrada da igreja que parece ter sido editada no Paint. Já duas pilastras adiante, debaixo da imagem de um santo, um QR code colado na parede pede doações por pix. Eu parei de frequentar missas quando smartphones não existiam, o pix, então, nem se fala. O momento das ofertas consistia em uma pessoa segurando uma cesta, percorrendo os bancos, ou em urnas depositadas embaixo de cada imagem de santo.
Não é eu não tenha passado esses anos todos, quase vinte, sem entrar em uma igreja. Mas tem algo diferente aqui. Eu pareço estar visitando um parente com quem briguei por medo de não termos nem conversado antes de algo muito grave acontecer.
Então, vamos lá, conversar. Mas conversar em outros termos, sabendo que. Sentada em um banco de madeira — só tem um casal de idosos uns cinco bancos à frente — decido ajoelhar como fazia nas missas. Dez segundos nessa posição e pareço estar sendo espancada pelos joelhos. Como é duro, era assim? Sempre foi? O meu peso sob as pernas envergadas parece mostruoso e eu quero muito levantar, mas preciso terminar a conversa, preciso insistir, mesmo sentindo uma eletricidade vindo de baixo, um suor frio de dor. Respiro, penso quantos quilos a menos eu pesava com 16 anos, o que pode ter acontecido com meus ossos e músculos desde então pra que ajoelhar em uma tábua de madeira dura virasse um suplício. Talvez o meu peso não seja medido em quilos, agora. E a dureza da tábua não tenha nada a ver com a madeira. Olho pro lado e vejo a imagem do mesmo santo da medalha bojuda e dourada que Ela me deu. Segundo a IA do Google:
É o padroeiro dos médicos, sacerdotes, viajantes, soldados, escoteiros, e também da saúde e cura física e espiritual.
O que mais gosto nela, penso depois, são suas pequenas grandes devoções. Um amor às suas coisinhas, e a vontade de mostrar todas elas ao mundo. De olhos fechados e mãos balançando retas no alto, para de cantar o cover Doin’ Time que está tocando na sala e me pergunta com uma seriedade carinhosa: você gosta de Lana Del Rey?
Penso sobre o que Ela e ela conversariam, um dia, se a aversão dos homens pelo mistério, essa falta de fé, permitisse essa conversa.
Saio da catedral que aceita pix e desço as ruas ao redor. Uma casinha branca com portas azuis está aberta, e diz o letreiro em lona que abrigou o primeiro santo brasileiro. Obedeço minhas pernas, me pergunto o que estou fazendo, lembro de estar tantas vezes sentada ao laptop obedecendo minhas mãos, também. A vida é mesmo assim às vezes, obedecer às pontas, porque elas sabem mais. Me sinto integrada a todos os espaços do mundo, é um vazio adiante que se abre e me convoca a dar mais passo e o ocupá-lo, como uma criança desamparada. Eu posso fazer o que quiser com as pernas, com as mãos, com o mundo, agradeço pela chance de saber disso, apesar de tudo.
Na casa-museu, leio a linha do tempo, vejo as relíquias, me pergunto o que estou fazendo ali e sei que existe uma resposta, mas não preciso saber qual é. Escrevo. Pego um papelzinho e peço que o santo que nos proteja, a nós todas.
Depois, procuro um souvenir.
Horas depois, depois da mesa dela no evento, voltamos pra buscar as malas e deixar o hotel. Olho uma última vez pra catedral no topo da rua enquanto esperamos o uber. Começa a anoitecer, as nuvens apagam em seu teto baixo, a cidade segue em silêncio. Peço que me escrevam uma notícia boa, que o que eu leia, dali a alguns dias, seja uma notícia boa.
E, no exato segundo em que termino de escrever a palavra que não quero ler na minha cabeça, a luz da entrada da igreja se acende.
O carro chega logo em seguida — pode ser que.
Se você está lendo esse texto, é porque essa história terminou bem.
Essa edição é dedicada a Jards, Lô e Miguel, devoções de algumas das personagens que aparecem aqui.
Até a próxima — em dezembro (sim senhoras).



Carina, sua escrita não somente é luz, como também é raio, estrela e luar. Todas as forças da natureza.
como é bom te ler ❤️