#23 Minha voz
Um convite inusitado e um segredo de anos
Você gosta de karaokê?, o motorista perguntou e eu na hora tirei a cabeça do celular e me dei conta: então eu tô num carro, com um estanho, eu nem sei de que marca é esse carro meudeus, como mesmo vim parar aqui? Claro, o aplicativo. Aquele momento em que uma frase fora do lugar te leva à lua junto com a primeira expedição humana, e depois te traz de volta. Olhei ao redor e, no painel do banco do carona, reparei no globo de luz desligado.
Depende, eu disse com a voz na ponta dos pés.
Tá, eu vou te explicar. E foi assim que começou.
Eu dentro do carro, criança, olhos fechados pra não enjoar nas curvas do Alto da Boa Vista. Tinha uns 7 ou 8 anos, ou talvez 5, ou 10. Tinha essa idade, a que sempre tive, que sempre terei. Dentro do escuro do meu corpo, ouvia a música do rádio, talvez Rita Lee, mas certamente JB FM. Uma rádio sem os hits da van da escola, mas de músicas que me apagavam um pouquinho o mundo. Toda música que fazia isso também me dava vontade de cantar. Eu nunca tinha cantado, mas sabia que, um dia, cantaria e seria lindo. Que eu ia tirar de mim um monte de coisas lindas e brilhantes que ninguém via, ninguém nunca viu, que moravam agudas e prontas nos meus pulmões.
Fugi do coral da escola, da banda da escola, dos esportes da escola. Todas acrescentavam um ponto à média de todas as matérias, muita coisa em uma escola rigorosa, ainda mais depois que descobri o que era química e física.
Só não fugi das aulas de teatro. Mas durou pouco.
Com a luz do carro já apagada, o motorista perguntou o que eu queria cantar. Colocou o globo iluminado pra girar. Eu me sentia fora de órbita, rindo a cada resposta que dava. O menu da TVzinha bem no centro do painel do carro dele trazia uma lista em ordem alfabética.
Vê as da Amy Winehouse, então.
Seriam tipo as últimas músicas que eu escolheria cantar em um karaokê, mas só estávamos eu e ele no carro, o mundo e seus gritos do lado de fora. Escolhi Back to black e lembrei da Joana.
A Joana.
Eu tinha vinte e cinco anos e entendi que precisava fazer a coisa. Beleza, mas qual? Joana foi uma boa tentativa. Abri um daqueles sites online que traziam uma lista de professores de várias atividades, de aulas de reforço a aulas de surfe. Vamos lá, canto. Canto iniciantes. Canto pra quem é burra, digo, não sabe cantar. Noventa por cento das pessoas inteligentes não sabem cantar direito, eu acho. Foi ali que achei o rostinho da Joana, com seus cachinhos perfeitamente armados, junto de um preço acessível. Cliquei.
Quando ela abriu a porta, a primeira coisa que me chamou na quitinete foram as borboletas coladas na parede. Ficavam ao lado da cama de casal, que por sua vez ficava atrás do teclado usado nas aulas. O apartamento minúsculo tinha uma cozinha integrada à sala, de onde ela sempre me oferecia água, é bom pra hidratar a gaganta e melhorar a voz. Eu sempre chegava seca. Precisa beber mais água, ela repetia. Precisa fortalecer os pulmões. Encher mais.
Na primeira aula, cantei Coração ateu. Bethânia morreria de desgoto, mas sustentei o carão. Você tem uma voz bonita, ela disse. Você cumpre as notas bem. Ela me ajudou com uma transição errada naquele dia. Em duas aulas, a música estava redonda. Agora, vamos pra próxima.
Nas semanas seguintes, fui introduzida ao fantástico mundo do que entendi como vocalees (isso existe?) e dos erros. Eu não sabia nada de música, eu não entendia nada de música. Eu só sabia fechar os olhos e querer que o segredo, a coisa que era bonita e brilhate e morava no meu escuro saísse de mim, fosse vista e apertada, como um bebezinho. Treinava em casa quase em silêncio — eu dividia o apartamento com mais três colegas de trabalho, que não podiam nem sonhar que eu estava passando essa vergonha, e ainda pagando (com dificuldade) por ela.
Assim, por cinco meses, fui de Bowie a Elis Regina, aos trancos e barrancos, sempre precisando atravessar a escala com mais segurança e, claro, fortalecer os pulmões.
Com o tempo, fiquei obcecada em cantar tudo direito. Toda vez que eu saía da aula com notas e notas pendentes de acerto, me sentia desolada. Afinal, eu não tinha nada de glorioso dentro de mim, só o meu fôlego de franga e um pouco de boa vontade. A gente nunca se escuta até se escutar, e aí, inevitavelmente, parecemos um outro estranho, grosseiro, merecedor de alguma repulsa.
Muitos anos depois, descobri ter uma leve deformidade no osso do esterno. Tive, então, vontade de abraçar meus pulmões de galinha, apertados na quitinete imposta a eles pelo buraco no meu peito, incapazes de passar de um agudo ao grave sem trupicar um pouquinho.
Com aquilo que parecia um microfone de brinquedo na mão sentada no breu do banco de trás cortado pelas luzes do globo, me preocupei só em deixar a voz ir, em engatá-la fundo em toda e qualquer oportunidade. Eu não me ouvia direito, provavelmente errei 70% da música, mas saía algo doce dali, tipo aqueles chocolates vagabundos de festa de criança, com açúcar em excesso. Mas não nego um chocolatinho desses, principalmente em um dia meio esquisito.
Eu estava prestes a me mudar do Rio, pra fazer um mestrado, mas eu não tinha coragem de contar a ela. Aula a aula, eu terminava sem dividir essa informação. Até que, no final de uma das aulas, foi ela quem me disse que estava indo embora. Tinha acabado de terminar o doutorado e voltaria a morar com a família, em Goiás. Eu fiquei metade em choque, metade aliviada. Combinamos que a próxima aula seria a última, que eu escolhesse uma música nova, treinaríamos e fecharíamos, ali, esse ciclo.
Escolhi uma música fácil, tom grave, amada por uma pessoa que eu adorava. Percorri a letra sem sobressaltos.
No final, Joana me olhou séria, sua feição era o próprio castigo.
Eu não gostei. Essa música não tem nada de você.
Depois de um silêncio pequeno, comecei a chorar. Chorei e chorei de soluçar. Sim, a música era fácil, monocromática. Não tinha nada a ver comigo, era óbvio. Me senti pelada, ou peluda.
Ela passou o resto de tempo da aula me consolando e servindo água. Dessa vez, pouco me importava o estado da garganta.
Nos despedimos e segui chorando no caminho de volta pra casa.
Ela nunca soube que eu também ia embora do Rio.
Muito se fala sobre encontrar sua voz na escrita, mas talvez seja mais grandioso escrever a ponto de perder a voz, cair nos buracos entre as notas. Ouvir de alguém: não vá. Ir.
Joana nunca me disse um não. Pra música nenhuma.
Eu nunca falei de Joana enquanto fazia aulas com a Joana. Ninguém soube.
Cheguei à porta do meu prédio no fim da música. Que voz bonita você tem, o motorista que, sim, ama Karaokê, disse. E ficou toda aí escondendo o jogo!
Eu sabia que não era verdade, mas agradeci. Tá ok sair tudo errado. Não era aquele o lugar da coisa. Talvez seja outro, esse. Ainda não tenho certeza, eu acho.
Posso compartilhar a gravação?, ele perguntou. Olhei pro celular no painel que testemunhou a tentativa ridícula da minha voz. Deixei.
Não sei se ele compartilhou mesmo, no perfil em que anuncia seu carrokê. Acho que prefiro não ver.
Também não perguntei a ele se podia compartilhar aquela corrida.
Achei que ia fracassar em escrever aqui todos os meses já em janeiro, mas ufa, deu certo.
Se você gosta dessa news, alimente a escritora e compartilhe a edição. Fale dela.
Se você não gosta, e provavelmente se odeia por chegar depois de 70 parágrafos, peço desculpas.
Coisinhas de janeiro:
No ano passado, eu tinha uma meta de ler alguns clássicos (antigos e modernos) que esburacavam minha formação. Ela segue esburacada, mas. Em dezembro, pasmem, li A redoma de vidro pela primeira vez, e fiquei muito admirada. Queria ter lido antes de virar adulta, só pra reler agora.
Por falar em vidros e paixões, venho publicamente comemorar que este livro de contos, Prêmio Arte Na Praia 2025, foi merecidamente premiado pela APCA este mês! :)
E por falar em Plath, qualquer edição da newsletter da clarissa wolff é muito boa. Leiam, então, a mais recente.
A Camila Maccari, procurem saber, agora escreve diários em público, e me inspirou a não largar isso aqui de mão, seja como for.
Duplinha de talentosos: Bazzan fazendo um belíssimo trabalho em mapear a cena musical autoral em SP; Gaía Passarelli, escritora e mestra da newslettosfera brasileira, vai dar cursos sobre o tema na escola de conteúdo — escola que já frequentei e recomendo muito.
É isso. Voltem pela sombra!



que texto gostoso de ler <3 amei te descobrir (e obrigada pela citação, honradíssima!)
O texto me deixou em suspenso... Aquela corrida de aplicativo... ainda bem que deu tudo certo. Quanto às aulas de canto, todo ano penso em começar, mas acabo desistindo, que pena.