#24 Perder
Coisas do passado e como é ser da geração do adulto Ney
Cresci sabendo que tudo que é sólido se desmancha no ar, ou pelo menos é passível de se desmanchar, e isso muito antes de saber que existia outro senhor de barba parruda no imaginário ocidental além do Papai Noel. Era 1998, julho, e minha família nuclear tinha ido a Brasília pra encontrar (e no meu caso, conhecer) toda a minha família expandida materna. Daqueles dias, lembro da terra rosa do cerrado, das avenidas planas, das casas de parentes cheias de metros quadrados, ao contrário da minha, de estar tão longe do Rio pela primeira vez na vida, a ponto de o ar ser diferente. E também de assistir, no chão da casa de uma das minhas tias, à final da Copa de 98.
O Brasil, sabemos, vinha embalado pelo tetracampeonato, do qual eu não tinha lembrança alguma — a não ser de ser de uma camisa baby com o número do Romário que supostamente me vestiram quatro anos antes, e que ainda ficava rolando no armário dividido com meu irmão. Eu tinha perdido o corpo de neném e era uma criança, uma criança até grandona, e caber naquela camisa parecia coisa de outra encarnação (a encarnação pré-linguagem, pré-memória).
Eu tinha nascido em um país vitorioso, que naturalmente iria ganhar. Mas eu queria saber como isso funcionava.
Mas, naquele chão, fui apresentada às contingências.
O que aconteceu com Ronaldo — que na época a gente chamava de Ronaldinho —, quem era Zidane, por que estávamos perdendo daquele jeito humilhante se o Brasil, me ensinaram era o país do futebol? Hoje, só sei que aquela talvez tenha sido minha primeira experiência com o imponderável do luto: esse simplesmente acabar, simplesmente perder, a vida tirar assim algo que naturalmente continuaria, sem maiores explicações.
Com seis anos, eu era privilegiada o suficiente para não ter visto, até então, nenhuma das três bisavós que eu conhecia morrer. Então a vida era isso, o mais e mais, um acúmulo. Mais anos, mais palavras, mais séries na escola, mais toucas na natação, as coisas simplesmente vêm. Eu não tinha visto elas irem, ainda.
Perder daquele jeito humilhante não era só perder, era perder sem previsibilidade, sem resposta. Eu que desde cedo era tenebrosa em qualquer esporte, contava com as palavras e com o Brasil pra me sentir um pouquinho mais vencedora, pra sentir o que sentiam as crianças não tão estabanadas, as que pegavam na bola e faziam alguma coisa produtiva com ela.
E o Brasil, ali, tinha falhado. Tudo, a partir dali, poderia estar por um fio. Esteve mesmo.
Quando a Seleção Brasileira foi eliminada agora, neste julho, tenho 34 anos. Já vi muita gente morrer e tenho um aluguel pra pagar. Mas, por algum motivo, doeu como no apagão do Ronaldo.
Sim, a seleção era um agrupamento de molecões que mamam nas bets. Sim, o Brasil chegou à Copa jogando como um pepino (ou o Vasco). Eu, honestamente, nem acompanhei o ciclo e se a seleção e a CBF fossem abduzidos depois de um amistoso eu não sentiria a falta deles. Nadando golfinho em todas essas ambivalências, em meio aos cuidados de um familiar em depressão, aconteceu o pior, como diria o Chico Barney: comecei a não duvidar.
Cada vitória daquele grupo, em meio às muitas derrotas da vida adulta, ao fenecimento, ao medo do que mais vem aí numa espiral de loucura e mau-caratismo global, foi capaz de dizer à menina do chão de taco em Brasília que, apesar de termos perderdido muito, um dia, e vai parecer que não, nós vamos ganhar, sim. Vamos ganhar mesmo contra os prognósticos, como já aconteceu outras vezes. Vamos ganhar, mesmo sujos e feios.
Em alguma instância — e as pessoas podem falar de técnica, de tática, de talento, de escolhas, de genética, de hábitos, de história familiar, de comportamentos de risco, de ciência, de saúde pública — a morte e a derrota são sempre questão de azar, ou de sorte.
Tenho pena das novas gerações. Tenho pena da minha geração. Tenho pena da geração anterior à minha e da anterior a ela. Também do meu avô, que não viu o Brasil ganhar esse ano e tem 91 anos. Das crianças, que não vão mais lotar a minha sala com gritinhos agudos e parecerem sacos de batata dentro das camisas dos pais. Das crianças que pintaram a rua aqui e fizeram a questão de escrever “2026” dentro de uma das estrelas. Das que não vão poder, como eu aos dez, se inundar daquela sensação quente e palpitante de que éramos, sim, capazes de vencer. Os jogares correndo pro meio do campo em rasantes. A vontade de sair correndo como um cão e morder em cheio a felicidade. Tenho pena das pessoas de trinta e poucos, quarenta anos, mesmo essas que viram comigo o penta, a quem foram prometidas possibilidades de país, soluções, sonhos, mas nossos sonhos sempre estiveram corrompidos, e fomos nós mesmos que os corrompemos esperando pelo melhor, e reclamando do pior. Esse povo que, em algum lugar, sabe como é a possibilidade de correr alegre abocanhando a alegria, mas a alegria não tá mais ali, no centro do campo, e sim em todo lugar, mas em nenhum lugar: ela tá numa nuvem.
Lembro que o filhinho de quatro anos de um amigo mandou um áudio, mediado pelo pai, comunicando que o time dele agora “era o Brasil”. Mas e o Flamengo?, perguntei. Meu amigo disse que ele continuava flamenguista, mas decidiu esquecer disso por um tempo, empolgado com a Copa. Ah. No início do torneio, quando tivemos essa conversa, eu mesma não estava nem aí, com raiva de todos os envolvidos. E essa raiva não passou. Mas, aos poucos, fui reaprendendo a língua das crianças, esse idioma que dribla a razão, que abraça desconhecidos na rua, mesmo que a gente não morra de amores por eles.
Uma coisa que eu faço muito é sempre esperar pelo pior. Na final contra a Alemanha, em 2002, eu dizia que só de chegarmos à final era muito, e tentei passar a semana me conformando de que perderíamos. Quando, naquele mesmo ano, ganhei uma medalha no concurso de redação da escola (falando sobre ruas enfeitadas pra Copa), comecei a pensar em todas as pessoas da sala que não eram eu e que estavam na iminência de ter o nome anunciado. Mesma coisa quando, bem mais velha, ganhei um prêmio pelo meu primeiro livro de contos. Fui descendo no meu feed o post que anunciava os vencedores, cobrindo os nomes com os dedos, e antes de tirá-los, eu disse: não vai ser você, tá? Não vai.
Tenho a mesma idade que o Neymar e, apesar de desprezar a figura dele, não consigo deixar de sentir alguma tristeza ao vê-lo saindo de campo diante do absoluto fracasso, pra provavelmente nunca mais voltar.
Uma coisa temos em comum, eu e adulto Ney: na escola, eu só fazia pontos (gols, cestas) quando meu time estava perdendo de muito, em uma derrota irreversível. Sem a responsabilidade de ganhar, meu time provavelmente já tinha desistido, e eu pegava mais na bola por isso, e pontuava.
Sinto uma tristeza além do óbvio pelos camelôs que, na praça aqui em frente, vendiam camisas do Brasil. Sinto até pelos pedaços de pano, rejeitados depois de costurados, revendidos, expostos, acreditados.
Uma vez, ouvi que é melhor a gente acreditar, imaginar a situação, participar dela, viver tudo o que há pra viver sem sair da nossa cabeça, e depois, quando a derrota vier, sairmos expulsos de um salão onde, de alguma forma, já dançamos. Ainda mesmo da festa começar.
Enquanto termino este texto, o simpático e infalível Mbappé acaba de perder um pênalti. É possível que seu time ganhe a partida, afinal. As vitórias podem muito bem ser compostas por pequenos desastres e o contrário também é verdade. Acredito menos em meritocracita do que acreditava na Seleção Brasileira de 2026, portanto, é bem possível que alguém ganhe jogando feio, como ganharíamos se tivéssemos mais sorte. Um caminhão faz barulho parado em cima do canarinho pistola que pintaram na minha rua, logo depois das seis estrelas e imaginárias e do escudo da CBF que já começa a desbotar no asfalto, graças a deus (e a outros caminhões como aquele). Só reparei na sexta estrela pintada na rua depois que o Brasil perdeu. Ainda estou com pouco dinheiro. Ainda sinto que fracassei em quase tudo o que me propus a fazer. Ano que vem faço 35 anos mas, ao contrário de Neymar, estou longe de ter a vida ganha. Ainda estou começando. Preciso ainda estar começando.
Depois da derrota da Seleção, xingo todo mundo junto com os adultos. Depois, descemos pra brincar na quadra. Tenho seis anos. Aprendi a ler e escrever há um e meio. Aprendi hoje minha pimeira palavra em francês que não é nome de gente ou da empresa onde meu pai trabalha: Stade de France.
É uma viagem feliz.
Coisinhas de julho e junho:
O tema de hoje é perder, meio que, e eu não podia deixar de falar do romance novo da Paula Gicovate. É um livro sobre luto, sim, mas um luto que não impede a narradora de viver outras coisas, coisas banais, a ordem da geladeira, a vontade que a avó sumisse, de baixar um Bumble e transar com um homem péssimo. É isso que coloca um personagem em movimento. A penúltima cena ganhou meu coração. Vale a leitura — e é difícil não se identificar com esse abismo, o mais antigo do mundo.
Está em pré-venda esta antologia da Editora Diadorim qual tive a honra enorme de participar com um conto. Viva o projeto Elas na Escrita, que conseguiu reunir tantas autoras maravilhosas de várias partes do Brasil — eu ali, com meus seis anos de idade, no meio de tantas referências.
Conviver com uma pessoa produtiva e escrever pouco por aqui dá nisso: toda newsletter tem jabá da mateus baldi. Dessa vez, falando do álbum icônico do Caetano Veloso, no Livro do Disco: Transa (Ed. Cobogó). Lendo e adorando!
Se você está lendo essa newsletter antes de 14 de julho, eu preciso te contar um negócio: nesse dia tem Casinha de Leitura, um versão de bolso na imersão que mistura leitura coletiva e psicologia que a escritora e psicóloga Ana Paula Moreira oferece há alguns anos. Se você ouvir a Ana falando sobre, vai entender porque as pessoas entram no projeto e não saem mais.
Tenho saudades da vida quantitativa, tenho vontade de escrever sobre isso por aqui, e vi que a Futuro Sensível já levantou esse ótimo tema aqui.
Se você é uma das cinco pessoas que gosta dessa zona aqui, considere remunerar (mas não muito) meu trabalho não remunerado aqui ou aqui
Obrigada e até breve :)




Fico feliz de lembrar do tetra e do penta, é difícil explicar a sensação... Tomara que um dia ela volte às ruas. Nos vemos na Flip e
É uma honra dividir o livro com vc!
Gostei muito das lembranças dessa época feliz...